Embraços
Eu nada escrevia pra tu porque sabia que não gostava de ler. Também não era chegado a sentimentalismos. Destarte, nunca deixei de te contar que te amava e queria bem. Agora que está do lado de lá não vejo impedimento nenhum do senhor ler este bilhete.
Naquele tempo em que tua respiração se pendurava e perdurava pelas máquinas, esbarrei numa música estranha de uma das minhas bandas favoritas. A vocalista da banda tinha morrido mais cedo naquele ano. Com uma voz melancólica e suave, ela repetia:
It won’t last/ Isso não vai durar
Hold on fast/ Aguente firme logo
O fato é que até hoje não compreendi muito bem todo o significado (talvez isso torne ela mais linda ainda), inclusive cheguei a tentar interpretá-la em sessões de terapia. Contudo, acho que pensar em tu me ajudou com as peças que faltavam. Eu sabia que não ia durar. Eu sabia que tinha que aguentar firme e logo.
Assim que minha mãe decidiu viajar de novo pra o interior, entre tantas outras que tinha ido pra acompanhar a tua internação, senti uma pontada no coração. Falei que ia também. Na estrada devo ter escutado essa canção pelo menos umas quinze vezes. Remoía a letra comigo.
Fui uma das últimas pessoas a ver e a falar contigo. Mesmo em meio ao teu sono confuso de computador de hospital. Fomos eu e tia Conça pela tarde. Sabia que aquele em cima da cama era tu, mas não conseguia mais reconhecer. Não te via mais ali. Rezei um oriki pra Oxalá, recitei o salmo 23 e pedi que tu fosse embora. Tudo já tinha dado certo. A família já tinha uma casa grande com um teto pra dormir embaixo. Os filhos, todos empregados, já tinham constituído suas próprias famílias. Conhecia teus motivos pra continuar agarrado àquele pedaço de carne, que a todo momento algum médico vinha anunciar uma nova complicação, mas te disse; está tudo bem, todos estão bem. Fechei os olhos e imaginei tu atordoado caminhando até a luz.
E no outro dia tu partiu pela manhã. Naveguei horas velando teu corpo. Foi uma das mais incandescentes e longas noites. Tive conversas sobrenaturais, das que ocorrem uma vez pra nunca mais. Haviam instantes que pensava que só eu ainda estava acordado, haviam instantes que via os cômodos se inundarem de gente do mundo dos vivos e do outro. Estava de resguardo de bebida e passei sede violenta de uma taça cheia de vinho. Ou uma dose de cachaça. Chorei até os olhos arderem. O amor e o cuidado das pessoas por ti era tremendo. Bêbados, políticos, professores, admiradores. Foi um homem tímido, introvertido. Nunca levantava a voz, nunca reclamava ou se revoltava. Porém, por um capricho qualquer do destino, este o fez uma personalidade. Cheio de compadres que cheiravam a tabaco, irmãs chorosas e afilhados que frequentemente trocava os nomes.
O que guardava de tão valioso consigo? Talvez a quietude. Os olhos. O tempo.
Nas festas de casa mal participava. Separava quieto o prato, comia, sorria pra todos nós e ia dormir. E aquilo estava bom. Ficávamos contentes. Como se cochilar fosse a sua parte naquilo enquanto todos conversávamos, bebíamos e fazíamos algazarra.
Não conseguia conversar olhando nos olhos. Só quando parava pra abraçar. Aí os olhos abraçavam junto. E brotavam as linhas curtas de diálogo. Bença vô. E a faculdade. E o Botafogo. Toma uma bala pra chupar. Toma uma tubaína. Leva pão pra tua vó. Nós sorríamos, teus olhos brilhavam e estava tudo em paz de novo. O mundo seguia girando.
Nada roubava teu tempo. Os horários de acordar e dormir eram cumpridos com perfeição, sem o mínimo de intervenção do relógio. Em certos dias, com mais compromisso que o próprio sol. A rotina mais do que sagrada. Jamais faltava ao trabalho. Era capaz da clientela buscá-lo na porta de casa. É inesquecível a visão de tu sentado na venda calado. Apenas os olhos abertos acompanhando o movimento das pessoas na sinuca, na calçada, no balcão. Meditando.
Haviam momentos que a gente descobria que alguém lhe furtava. Tu seguia em frente. Quando o questionávamos, dizia que fulano não faria isso e desconversava. Os culpados voltavam pra comprar na venda logo no outro dia. Sempre um bêbado pedia comida. Tu, como se 1 + 1 fosse 2, o levava pra almoçar na mesa com todos de casa. Às vezes, por acaso, alguma criança entrava na tua casa e não mais saía de lá. E tu criava como filho.
Era isso. A certeza de que com paciência a vida continuava e havia espaço pra todos no mundo. Não é preciso se intimidar com a ordem natural das coisas, com a passagem do tempo e o desencadeamento das nossas escolhas. Não é preciso ansiar estar em todo lugar o tempo inteiro.
São muitos detalhes dentro da moldura do que tu deixou quando partiu. Dentro dela todos nossos momentos simples, ligeiros e descomplicados estão chacoalhados. Enquanto via tu adoecer cada vez mais a cada semana já pressentia que isso era o que restaria de te perder, mas o que se sente depois é outra coisa. Antes eu lembrava de tu de uma forma espontânea e desavisada, agora luto pra não perder nada pro esquecimento.
Holding my head/ Erguendo minha cabeça
For the last of race/ Pelo último da corrida
Pushing my body/ Forçando meu corpo
To get that embrace/ A conseguir aquele abraço
Sinto a falta do teu silêncio, interrompido por soluços de quem come rápido demais. Sinto tanto a falta do teu silêncio. Deve fazer um ano agora. Todo mundo lá de casa mudou. Vejo teu pedaço de vazio em cada transformação. Parece que a ausência de alguém é um fenômeno que não se resume só à saudade, mas se torna um complexo de ecos na cabeça de quem estava ao redor. A gente finge que a vida continua, mas tem cacos pequenininhos furando as solas dos pés de todos.
Difícil esquecer, quando eu ainda era uma criança evangélica e tu me levava pra venda pra matar o tempo. Eu subia num banco na frente de uma variada estirpe de bêbados e começava a pregar que eles abandonassem o álcool. Fiz muitas amizades ali. Tudo era motivo pra tu sorrir. Sei que tinha orgulho de mim. Olha que eu não precisava fazer muita coisa, tu apenas me via continuar grande e vivo e agradecia a Deus. Também não conseguia me dizer um não. Até mesmo quando um dia te pedi um isqueiro.
Acho que naquela última vez que te vi junto com as máquinas apitando, acho que naquela vez tu deve ter me abraçado. De um jeito ou de outro. Ao menos é a memória que escolhi me segurar.
Isso não vai durar, aguente firme logo.
Hoje lembrei dessa música novamente. Eu queria ter escrito e lido algo no teu velório, mas estava ocupado chorando demais.
Eu te amo, vô. Ainda não sei o quanto entendia dessas palavras, mas é como se eu quisesse ver tu comendo farofa assistindo um jogo do Botafogo pra sempre. Boa viagem. Deus lhe acompanhe.
Música:


